4 anos de Lula: afinal, o Brasil melhorou ou piorou?

Inflação, empregos, juros, dívida, Bolsa e economia: veja os principais números do governo Lula, o que melhorou, o que piorou e quais desafios ainda estão pela frente.

MERCADO

8/15/202611 min read

Em janeiro de 2023, Luiz Inácio Lula da Silva assumiu pela terceira vez a Presidência da República, após vencer Jair Bolsonaro na eleição mais apertada da história democrática recente do país. Quatro anos depois, às vésperas de uma nova disputa eleitoral em outubro de 2026, o Brasil tem números suficientes para um balanço: o que melhorou, o que piorou e o que permanece em disputa entre governo e oposição. Este texto reúne dados oficiais e análises de diferentes fontes — sem adotar um lado — para ajudar o leitor a formar sua própria opinião.

O cenário de largada

Lula recebeu o país em um momento de recuperação pós-pandemia, com inflação ainda pressionada, juros altos e um mercado de trabalho que vinha de dois dígitos de desemprego durante boa parte do governo anterior. A vitória, por margem inferior a dois pontos percentuais sobre Bolsonaro, já sinalizava um país dividido — divisão que se manteve, e em alguns momentos se aprofundou, ao longo do mandato.

Os primeiros meses de governo foram marcados por um episódio que definiu o tom da relação entre governo e oposição: os atos de 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores de Bolsonaro invadiram e depredaram as sedes dos três Poderes em Brasília. O episódio gerou investigações, prisões e um processo no Supremo Tribunal Federal que se estendeu por boa parte do mandato, mantendo aceso o embate político entre lulismo e bolsonarismo mesmo fora do calendário eleitoral.

Do ponto de vista econômico, a equipe do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, assumiu com o desafio de reconstruir a chamada "âncora fiscal" do país, substituindo o antigo teto de gastos por um novo arcabouço fiscal aprovado ainda em 2023. A proposta dividiu opiniões desde o início: para o governo, era uma forma de equilibrar investimento social com responsabilidade fiscal; para críticos, tratava-se de uma regra frouxa demais para conter o crescimento da dívida pública no médio prazo — um debate que, quatro anos depois, ainda não tem resposta definitiva.

Emprego: o principal trunfo do governo

Se há um indicador em que praticamente não há controvérsia sobre a direção da mudança, é o mercado de trabalho. A taxa de desemprego, que girava em patamares de dois dígitos em anos anteriores, caiu para cerca de 5,4% no trimestre encerrado em junho de 2026, com o país somando mais de 103 milhões de pessoas ocupadas — o menor índice de desocupação da série histórica medida pelo IBGE, iniciada em 2012. O rendimento médio real do trabalhador também subiu de forma consistente: de cerca de R$ 3.198 no início de 2023 para valores acima de R$ 3.700 em 2026, alta real de aproximadamente 15% no período, segundo dados do IBGE. Governo e economistas independentes concordam que essa combinação — mais gente empregada e ganhando mais — é o dado mais favorável ao atual mandato.

Ainda assim, é preciso um contraponto trazido por analistas de mercado: parte desse aquecimento já mostra sinais de acomodação, e alguns economistas apontam que o país pode estar próximo do limite da capacidade produtiva atual, o que tende a reduzir o ritmo de novas contratações nos próximos anos, independentemente de quem estiver no poder.

Outro ponto debatido é a qualidade dessas vagas. O governo destaca que boa parte da geração de empregos ocorreu com carteira assinada, revertendo parcialmente a tendência de informalização observada em anos anteriores. Já analistas de mercado ponderam que a informalidade segue relevante em setores como comércio, aplicativos de entrega e serviços domésticos, e que o crescimento do rendimento médio não se distribui de forma uniforme entre regiões — o Nordeste e o Norte, por exemplo, seguem com índices de informalidade superiores à média nacional, mesmo com a melhora geral do período.

Fome, pobreza e desigualdade

Um dos símbolos mais explorados pelo governo é a saída do Brasil do Mapa da Fome da ONU, alcançada ainda em 2023. Segundo dados oficiais, cerca de 8,7 milhões de pessoas deixaram a linha de pobreza e 3,1 milhões saíram da extrema pobreza entre 2023 e os anos seguintes, levando os índices de pobreza e extrema pobreza aos menores níveis desde o início da série histórica do IBGE, em 2012.

O índice de Gini, que mede desigualdade de renda, também recuou: de um patamar próximo a 0,545 no pior momento da série para cerca de 0,517 em 2024. Técnicos do IBGE fazem uma ressalva importante: sem os programas de transferência de renda, como o novo Bolsa Família, o índice estaria bem mais próximo de 0,555 — ou seja, boa parte da melhora é atribuída diretamente à política social do governo, e não apenas ao desempenho geral da economia.

Mesmo com esses avanços, os números absolutos ainda preocupam: levantamentos referentes a 2023 mostravam quase 59 milhões de brasileiros vivendo na pobreza e 9,5 milhões na extrema pobreza — uma redução relevante frente aos anos anteriores, mas um contingente que segue enorme em termos absolutos.

Inflação e economia: avanço, mas com ressalvas

Na comparação direta com o fim do governo Bolsonaro, quando a inflação rondava os dois dígitos, o quadro melhorou: o IPCA acumulado em 12 meses estava em torno de 4,6% em meados de 2026 — ainda acima da meta de 3% do Banco Central, mas em patamar bem mais controlado do que em 2022. O Produto Interno Bruto (PIB) também voltou a crescer acima da média do período imediatamente anterior: alta de 3,2% em 2023 e 3,4% em 2024, números que levaram o Brasil de volta ao grupo das dez maiores economias do mundo, segundo dados divulgados pelo próprio governo. Por outro lado, a política fiscal é o ponto mais criticado por economistas e por parte da oposição. A dívida pública bruta subiu de forma significativa ao longo do mandato, chegando a quase 82% do PIB. A Selic, taxa básica de juros, permanece em patamar elevado — 14% ao ano em meados de 2026 —, o que encarece financiamentos de imóveis, veículos, crédito pessoal e capital de giro das empresas. O Tribunal de Contas da União (TCU) também apontou fragilidades na gestão das contas públicas em relatórios recentes, e a carga tributária aumentou no período, segundo analistas que fazem contraponto ao discurso oficial.

Há ainda uma percepção que intriga economistas: mesmo com desemprego baixo e renda em alta, parte da população relata dificuldade para fechar as contas no fim do mês — um fenômeno que cientistas políticos atribuem à combinação de juros altos, crédito caro e à própria comparação que as famílias fazem entre salário e custo de vida no dia a dia, não capturada integralmente pelos indicadores agregados.

Meio ambiente

Na política ambiental, o governo aponta como uma de suas vitórias mais consistentes a redução do desmatamento na Amazônia: os alertas caíram 37,2% entre agosto de 2025 e junho de 2026, na comparação com o mesmo período anterior — uma reversão significativa frente à tendência de alta registrada nos anos do governo anterior.

Investimentos em infraestrutura e saúde

O governo lançou uma nova fase do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com R$ 1,3 trilhão previstos para o período 2023-2026, dos quais cerca de R$ 818 bilhões já haviam sido efetivamente executados segundo balanço oficial. Na saúde, houve entrega de novas Unidades de Pronto Atendimento, hospitais, policlínicas, ambulâncias do Samu e unidades odontológicas móveis.

Já o saneamento básico segue como um ponto sensível: analistas independentes apontam que apenas cerca de 10% da infraestrutura urbana brasileira tem acesso pleno a água encanada e coleta de esgoto — um problema estrutural que atravessa governos de diferentes partidos e está longe de ser resolvido neste mandato.

Educação

Na área educacional, o governo aponta como avanço a queda no abandono escolar no ensino médio, além da retomada de programas de expansão de vagas em universidades e institutos federais e do relançamento de iniciativas de tempo integral na educação básica, em parceria com estados e municípios. O programa Pé-de-Meia, que paga incentivo financeiro para alunos de baixa renda concluírem o ensino médio, também é citado pelo governo como fator relevante para a redução da evasão escolar.

Por outro lado, especialistas em educação apontam que os resultados de aprendizagem — medidos por avaliações como o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) — ainda não mostram melhora consistente na mesma proporção, e que o país segue enfrentando desafios estruturais herdados de governos anteriores, como a defasagem na alfabetização agravada durante a pandemia e a desigualdade de qualidade entre redes estaduais e municipais.

Segurança pública

A segurança pública é um dos temas mais disputados narrativamente entre governo e oposição. O governo federal lançou o programa Nova Escola de Governança em Segurança Pública e ampliou recursos para o Sistema Único de Segurança Pública (Susp), além de reforçar o combate ao crime organizado com operações envolvendo Polícia Federal e forças estaduais.

Dados de institutos de pesquisa em segurança pública mostram queda em alguns indicadores de violência letal em nível nacional na comparação com o início da década, mas a percepção de insegurança segue alta em pesquisas de opinião, e estados como Rio de Janeiro, Bahia e Amazonas enfrentam desafios específicos ligados à expansão de facções criminosas — um problema que analistas classificam como estrutural e de longo prazo, pouco suscetível a mudanças rápidas dentro de um único mandato presidencial, seja ele de qual partido for.

Política externa

No campo internacional, o governo Lula retomou um protagonismo diplomático mais ativo, com destaque para a presidência brasileira do G20 em 2024 e da COP30, realizada em Belém, no Pará, em 2025 — eventos que o governo apresenta como vitrines da retomada do papel do Brasil em fóruns multilaterais, especialmente nas discussões sobre clima e governança global.

Essa postura, no entanto, também gerou atritos. A relação com os Estados Unidos ficou tensionada em determinados momentos do mandato, incluindo episódios de fricção comercial e declarações públicas trocadas entre Lula e autoridades americanas, o que setores da oposição classificaram como prejudicial aos interesses econômicos do país. Já aliados do governo defendem que a postura de maior autonomia diplomática, incluindo a aproximação com países do Sul Global, fortalece a posição negociadora do Brasil no longo prazo. Como em outros temas, a avaliação sobre os ganhos e custos dessa estratégia depende do referencial político de quem analisa.

Popularidade: uma trajetória de altos e baixos

Diferentemente dos indicadores econômicos, a avaliação pessoal de Lula não seguiu uma linha reta de melhora. Pesquisas mostram queda de popularidade a partir do fim de 2024, com momentos de reversão parcial ao longo de 2025 e 2026. Institutos como Quaest e CNT/MDA registraram, em diferentes momentos, technical empate estatístico entre aprovação e desaprovação — cenário que contrasta com a força dos indicadores sociais e econômicos. Um dado chama atenção de analistas: a queda de popularidade foi mais acentuada entre mulheres, jovens de 16 a 34 anos e, em menor grau, entre homens — grupos que, em conjunto, foram decisivos para a vitória eleitoral de 2022. Cientistas políticos apontam explicações distintas para esse fenômeno, da percepção de custo de vida entre os mais jovens ao efeito de redes sociais e polarização, mas não há consenso sobre uma causa única.

Em pesquisas mais recentes de 2026, no entanto, houve sinais de recuperação: institutos registraram quatro levantamentos trimestrais consecutivos de leve alta na aprovação do governo, ainda que os índices sigam abaixo dos patamares observados em 2024.

Comparação direta com o governo Bolsonaro (2019-2022)

Colocando os dois mandatos lado a lado, alguns pontos se destacam nos dados oficiais:

  • Desemprego: caiu de patamares de dois dígitos, no fim do governo anterior, para o menor nível da série histórica sob Lula.

  • Inflação: recuou de níveis próximos a dois dígitos em 2022 para a faixa de 4% a 5% ao ano em 2026 — ainda acima da meta, mas mais controlada.

  • PIB: cresceu, em média, mais nos últimos dois anos do que na média do período 2019-2022, embora parte dessa diferença também reflita a recuperação natural pós-pandemia, fator que não pode ser atribuído exclusivamente a nenhum dos dois governos.

  • Dívida pública e juros: pioraram na comparação, com Selic e endividamento mais altos hoje do que em parte do mandato anterior.

  • Fome e pobreza: houve redução acentuada sob Lula, com saída formal do Mapa da Fome da ONU.

  • Meio ambiente: os alertas de desmatamento, que subiram no governo anterior, vêm caindo de forma consistente desde 2023.

Vale registrar que economistas divergem sobre até que ponto essas mudanças podem ser atribuídas exclusivamente às políticas de cada governo, já que fatores externos — como o fim da pandemia, o cenário internacional de juros e commodities, e o ciclo econômico global — também influenciam esses números independentemente de quem ocupa o Palácio do Planalto.

O que dizem os dois lados

Apoiadores do governo destacam a combinação de crescimento econômico com redução da pobreza e da desigualdade como prova de que é possível crescer distribuindo renda, citando estudos que associam maior igualdade a crescimento mais sustentável no médio prazo.

Já críticos e parte da oposição concentram seus argumentos na deterioração fiscal — dívida pública maior, juros elevados, carga tributária em alta e ressalvas do TCU sobre a gestão das contas — como sinal de que os ganhos sociais estão sendo financiados de forma pouco sustentável, o que poderia cobrar seu preço nos próximos anos, independentemente de quem vencer a eleição de outubro de 2026.

resumo

Quatro anos depois, o Brasil chega à eleição de 2026 com um retrato misto: recorde histórico de emprego, avanços expressivos no combate à fome e à pobreza, redução do desmatamento e retomada de grandes obras de infraestrutura de um lado; dívida pública em alta, juros elevados, carga tributária maior e uma popularidade instável de outro. Os números favoráveis ao governo são, em geral, sólidos e verificáveis; as críticas fiscais também encontram respaldo em dados oficiais, como os do próprio TCU e do Banco Central.

Como costuma acontecer em qualquer balanço de governo, a leitura final depende menos dos números em si — que são, em grande parte, consensuais — e mais do peso que cada eleitor atribui a cada um deles na hora de avaliar os últimos quatro anos.

Com a campanha eleitoral de 2026 tendo início oficial em agosto, esse balanço deixa de ser apenas retrospectivo e passa a ocupar o centro do debate público. Pesquisas de intenção de voto mostram Lula como favorito em boa parte dos cenários simulados, mas com margens apertadas diante de nomes como o governador Tarcísio de Freitas e outros candidatos ligados ao campo bolsonarista, como Flávio Bolsonaro. Cientistas políticos lembram que, historicamente, o desempenho econômico tende a pesar mais nas urnas do que qualquer outro fator isolado — o que torna os próximos meses decisivos tanto para a avaliação do mandato quanto para o resultado da eleição.

Independentemente do resultado de outubro, os dados reunidos aqui devem seguir sendo debatidos, reinterpretados e usados por diferentes lados do espectro político — cada um destacando os números que melhor sustentam sua narrativa. Cabe ao leitor, com acesso às mesmas informações, tirar suas próprias conclusões.

Fontes: IBGE, Banco Central do Brasil, Tribunal de Contas da União, Ministério da Fazenda, Governo Federal, institutos de pesquisa Quaest e CNT/MDA, e reportagens de veículos como CNN Brasil, Jornal da USP e Brasil de Fato.